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Robert Hooke e outros cientistas: A Teoria Celular

Robert Hooke (1635-1703) foi um cientista que nasceu em uma época de largos horizontes intelectuais na Idade Média. Possuía um apurad...

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A criação da pólis deu-se aproximadamente no ínterim dos séculos VIII e VII, quando a vida social foi remodelada para padrões que formaram a base da civilização ocidental. A grande mudança acabou por acarretar a formação de uma rica cultura grega, porque agora todos os cidadãos estavam entrosados como uma massa única que transpôs-se no demos da pólis. Essa nova cultura foi modificando os costumes e a convivência desses povos, alterando assim o código de conduta da vida em sociedade. A cultura foi sendo repassada hereditariamente através das mais diversas práticas sociais, que funcionavam como ritos de aprendizagem, conservação e transformação da cultura. Essa comunicação se dava através do sistema de signos, que permeavam a comunicação de homem para homem. Os signos, que podiam ser gestos, sons, palavras, se valiam como objetos de interação que possuíam um caráter ideológico carregado dos valores da sociedade de que um indivíduo é membro. Assim, aprendendo a língua de seu grupo em seu ambiente natural, o indivíduo vai tomando para si um código linguístico-ideológico que equivale à adequação aos costumes da sociedade.



Segundo dados de pesquisa da Unesco, cerca de 3 das 6 mil línguas que existem espalhadas pelo mundo estão em risco de extinção. Uma perda como essa representa um grande buraco na ciência e na cultura, já que uma língua nunca vem carregada apenas de gramáticas simples ou complexas, de palavras ou fonemas únicos. Uma língua é o resultado das convenções e práticas sociais, que por sua vez são disseminadoras naturais da cultura que foi formulada muito antes. Responsável pelas regras que possibilitam a intercomunicação entre indivíduos, é uma tábua de valores que é transmitida à geração seguinte. O desaparecimento de uma língua acarreta a perda total de uma cultura que pode ter levado muito tempo para ser consumada, uma irreparável fresta na história da humanidade que nunca poderá ser recuperada em sua totalidade. Só um falante nativo que tenha a outro falante nativo pode transmitir as verdadeiras características desse bem cultural imaterial tão precioso.


De mais de mil línguas indígenas existentes no Brasil, só 15% perduram até hoje. Desde a colonização brasileira pelos portugueses, a cultura indígena sofreu reviravoltas gritantes que mudaram bruscamente vários aspectos da sua cultura. Revoltas, massacres, escravidão, muitas interferências de outros povos alteraram permanentemente várias crenças e costumes indígenas. Por vezes, muitos povos também foram dizimados, outros tantos foram rejeitados pelos próprios entornos. Pequenas tribos que tinham um dialeto próprio, uma cultura singular, se perderam há muito. Talvez tenha havido muitos que sequer sabemos que tenha existido, talvez até mesmo que ainda não sabem da existência de outros povos não-indígenas. Mas, de uma forma ou de outra, cada povo é um povo. Possui uma cultura divergente ou convergente com outros, uma religião prática, um saber singular, uma língua somente sua.

Angel Corbera Mori, etimologista da área de Línguas Indígenas, esteve em contato direto com o povo Mehinaku, habitantes das margens do rio Curisevo no Alto Xingu, Parque Nacional do Xingu (MT). "Cada língua indígena constitui um sistema de comunicação, como tal tem gramática como qualquer outra língua natural, do contrário os falantes não poderiam se comunicar entre si. Por exemplo, se for pela primeira vez para uma aldeia indígena e essa língua ainda carece de estudos, terei inicialmente que coletar palavras com ajuda dos próprios falantes. Nessa fase inicial todas as palavras serão anotadas em transcrição fonética, constituída de símbolos especiais com base nas letras do alfabeto latino, mas com valores específicos para reproduzir quase exatamente a pronunciação do falante nativo." E ainda completa: "O povo Mehinaku, como acontece com todas as sociedades indígenas, não é plenamente reconhecido pela sociedade nacional. O Brasil, no contexto dos países da América do Sul, é o país onde se concentra a maior diversidade linguística e cultural. Mas a valorização das línguas indígenas pela sociedade nacional, pelo Estado, pelas universidades nacionais e pelos organismos de fomento à pesquisa ainda são muito tênues. Ainda o leigo, e mesmo as pessoas cultas com nível acadêmico de ensino superior, acham que os indígenas falam dialetos ou “gírias”. Chega-se ao absurdo de considerar que uma língua indígena carece de gramática. Sem dúvida, essa visão é etnocentrista. As pessoas acham que só as línguas indo-europeias têm gramáticas."


Os anos vão chegando, as décadas se achegam. A sociedade vai se alterando minuciosa e lentamente conforme ela própria vai se desenvolvendo. O avanço tecnológico que domina o mercado ocupa as mentes mais capitalistas, a religião se esvai na vida rotineira, os credos que deixam de ganhar a importância que um dia já tiveram. A sociedade entra em um processo de segregação sutil, que deixa cada vez mais distantes as classes sociais. Em grandes cidades, essa mudança favorece uma relativa alteração nos costumes e até mesmo nos dialetos dos indivíduos sociais. As classes mais altas e com mais poder aquisitivo são as que mais tem contato com essa globalização de informações, fazendo disso uma porta de entrada para uma mudança sutil que situa novos conceitos e termos técnicos em seu dialeto. Pequenas modificações também são sentidas nas classes com menos acesso a cultura, tornando seu  vocabulário fraco e pobre se comparado aos parâmetros do primeiro.


Também é perceptível a mudança em larga escala, como por exemplo o sotaque e de fragmentos do vocabulário de nativos de diversas regiões brasileiras. Dentro do mesmo estado, milhares de variações são notadas ao falar e ao escrever. Banhados pelo mar de informações que permeia os meios de comunicação, as grandes capitais mais desenvolvidas concentram um número maior de falantes da norma culta, uma consequência do acesso quase irrestrito à informação e das requisições feitas pelo mercado de trabalho. É extremamente necessário no âmbito profissional, já que os indivíduos da sociedade tendem a acompanhar o desenvolvimento do meio em seu torno. Nas cidades menos assistidas, com meios mais rudimentares de comunicação, ou ainda pela ausência de uma cultura que valorize a busca pela informação, o povo que ali habita desvia-se da norma culta e passa a criar novos dialetos, com palavras específicas para diversos significados cotidianos que até mesmo não se encontram no vocabulário culto.


Muitos indivíduos desconhecem os vocábulos das variações dialéticas da sua região. Por vezes, o preconceito é o que motiva essa ignorância quanto ao que pode se chamar de uma cultura embutida dentro da sua própria. Como no desenvolvimento da escrita grega: seus pensadores nutriam um enorme preconceito quanto ás línguas que não eram suas. O conhecimento das línguas dos estrangeiros para eles era dispensável. Consideravam-nas  rudimentares e pejorativas. Deu-se, então, um relativo atraso no desenvolvimento da habilidade de aprendizagem de línguas que não fossem as suas. Um atraso como ele repercute não apenas no conhecimento da cultura e da íngua alheia, mas também nas relações comerciais que podem ser consumadas. Com o desconhecimento dos costumes do povo em questão, pode ser sumariamente impedido o comércio, a interação e a convivência entre ambos.


Referências/Links Externos:
VERNANT, J. P. As Origens do Pensamento Grego, 2002.
LOPES, Edward. Fundamentos da Linguística Contemporânea, 1935.
Wikipedia.org
Dw.de
Terradagente.com.br
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1. Do motivo
Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências. Mas, parecendo-me ser muito grande essa empresa, aguardei atingir uma idade que fosse tão madura que não pudesse esperar outra após ela, na qual eu estivesse mais apto para executá-la; o que me fez diferi-la por tão longo tempo que doravante acreditaria cometer uma falta se empregasse ainda em deliberar o tempo que me resta para agir.
2. Do rompimento das antigas ideias
Agora, pois, que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que consegui um repouso assegurado numa pacífica solidão, aplicar-me-ei seria-mente e com liberdade em destruir em geral todas as minhas antigas opiniões. Ora, não será necessário, para alcançar esse desígnio, provar que todas elas são falsas, o que talvez nunca levasse a cabo; mas, uma vez que a razão já me persuade de que não devo menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas. E, para isso, não é necessário que examine cada uma em particular, o que seria um trabalho infinito; mas, visto que a ruína dos alicerces carrega necessariamente consigo todo o resto do edifício, dedicar- me-ei inicialmente aos princípios sobre os quais todas as minhas antigas opiniões estavam apoiadas.
3. Os sentidos
Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos 
ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de 
prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.
4. Parte dos sentidos é indubitável
Mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e muito distantes, encontramos talvez muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? A não ser, talvez, que eu me compare e esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por seus exemplos.
5. Sonho e realidade
Todavia, devo aqui considerar que sou homem e, por conseguinte, que tenho o costume de dormir e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas, ou algumas vezes menos verossímeis, que esses insensatos em vigília. Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito? Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.
6. Físico indubitável
Suponhamos, pois, agora, que estamos adormecidos e que todas essas particularidades, a saber, que abrimos os olhos que mexemos a cabeça, que estendemos as mãos, e coisas semelhantes, não passam de falsas ilusões; e pensemos que talvez nossas mãos, assim como todo o nosso corpo, não são tais como os vemos. Todavia, é preciso ao menos confessar que as coisas que nos são representadas durante o sono são como quadros e pinturas, que não podem ser formados senão à semelhança de algo real e verdadeiro; e que assim, pelo menos, essas coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e todo o resto do corpo, não são coisas imaginárias, mas verdadeiras e existentes. Pois, na verdade, os pintores, mesmo quando se empenham com o maior artifício em representar sereias e sátiros por formas estranhas e extraordinárias, não lhes podem, todavia, atribuir formas e naturezas inteiramente novas, mas apenas fazem certa mistura e composição dos membros de diversos animais; ou então, se porventura sua imaginação for assaz extravagante para inventar algo de tão novo, que jamais tenhamos visto coisa semelhante e que assim sua obra nos represente uma coisa puramente fictícia e absolutamente falsa, certamente ao menos as cores com que eles a compõem devem ser verdadeiras.
7. Natureza corpórea
E pela mesma razão, ainda que essas coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e outras 
semelhantes, possam ser imaginárias, é preciso, todavia, confessar que há coisas ainda mais 
simples e mais universais, que são verdadeiras e existentes; de cuja mistura, nem mais nem menos 
do que da mistura de algumas cores verdadeiras, são formadas todas essas imagens das coisas que 
residem em nesse pensamento, quer verdadeiras e reais, quer fictícias e fantásticas. Desse gênero 
de coisas é a natureza corpórea em geral, e sua extensão; juntamente com a figura das coisas 
extensas, sua quantidade, ou grandeza, e seu número; como também o lugar em que estão, o 
tempo que mede sua duração e outras coisas semelhantes.
8. Matemática indubitável
Eis por que, talvez, daí nós não concluamos mal se dissermos que a Física, a Astronomia, a Medicina e todas as outras ciências dependentes da consideração das coisas compostas são muito duvidosas e incertas; mas que a Aritmética, a Geometria e as outras ciências desta natureza, que não tratam senão de coisas muito simples e muito gerais, sem cuidarem muito em se elas existem ou não na natureza, contêm alguma coisa de certo e indubitável. Pois, quer eu esteja acordado, quer esteja dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quatro lados; e não parece possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade ou incerteza. 
9. Deus não engana porque é bom
Todavia, há muito que tenho no meu espírito certa opinião de que há um Deus que tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou. Ora, quem me poderá assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum corpo extenso, nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar e que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo isso não me pareça existir de maneira diferente daquela que eu vejo? E, mesmo, como julgo que algumas vezes os outros se enganam até nas coisas que eles acreditam saber com maior certeza, pode ocorrer que Deus tenha desejado que eu me engane todas as vezes em que faço a adição de dois mais três, ou em que enumero os lados de um quadrado, ou em que julgo alguma coisa ainda mais fácil, se é que se pode imaginar algo mais fácil do que isso. Mas pode ser que Deus não tenha querido que eu seja decepcionado desta maneira, pois ele é considerado soberanamente bom. Todavia, se repugnasse à sua bondade fazer-me de tal modo que eu me enganasse sempre, pareceria também ser-lhe contrário permitir que eu me engane algumas vezes e, no entanto, não posso duvidar de que ele mo permita.
10. Enganar-se é imperfeição
Haverá talvez aqui pessoas que preferirão negar a existência de um Deus tão poderoso a 
acreditar que todas as outras coisas são incertas. Mas não lhes resistamos no momento e 
suponhamos, em favor delas, que tudo quanto aqui é dito de um Deus seja uma fábula. Todavia, de 
qualquer maneira que suponham ter eu chegado ao estado e ao ser que possuo, quer o atribuam a 
algum destino ou fatalidade, quer o refiram ao acaso, quer queiram que isto ocorra por uma 
contínua série e conexão das coisas, é certo que, já que falhar e enganar-se é uma espécie de 
imperfeição, quanto menos poderoso for o autor a que atribuírem minha origem tanto mais será 
provável que eu seja de tal modo imperfeito que me engane sempre. Razões às quais nada tenho a 
responder, mas sou obrigado a confessar que, de todas as opiniões que recebi outrora em minha 
crença como verdadeiras, não há nenhuma da qual não possa duvidar atualmente, não por alguma 
inconsideração ou leviandade, mas por razões muito fortes e maduramente consideradas: de 
sorte que é necessário que interrompa e suspenda doravante meu juízo sobre tais pensamentos, e 
que não mais lhes dê crédito, como faria com as coisas que me parecem evidentemente falsas, se 
desejo encontrar algo de constante e de seguro nas ciências.
11. Questões confiáveis
Mas não basta ter feito tais considerações, é preciso ainda que cuide de lembrar-me delas; pois essas antigas e ordinárias opiniões ainda me voltam amiúde ao pensamento, dando-lhes a longa e familiar convivência que tiveram comigo o direito de ocupar meu espírito mau grado meu e de tornarem-se quase que senhoras de minha crença. E jamais perderei o costume de aquiescer a isso e de confiar nelas, enquanto as considerar como são efetivamente, ou seja, como duvidosas de alguma maneira, como acabamos de mostrar, e todavia muito prováveis, de sorte que se tem muito mais razão em acreditar nelas do que em negá-las. Eis por que penso que me utilizarei delas mais prudentemente se, tomando partido contrário, empregar todos os meus cuidados em enganar-me a mim mesmo, fingindo que todos esses pensamentos são falsos e imaginários; até que, tendo de tal modo sopesado meus prejuízos, eles não possam inclinar minha opinião mais para um lado do que para o outro, e meu juízo não mais seja doravante dominado por maus usos e desviado do reto caminho que pode conduzi-lo ao conhecimento da verdade. Pois estou seguro de que, apesar disso, não pode haver perigo nem erro nesta via e de que não poderia hoje aceder demasiado à minha desconfiança, posto que não se trata no momento de agir, mas somente de meditar e de conhecer. 
12. Deus enganador
Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado da falsa crença de ter todas essas coisas. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento; e se, por esse meio, não está em meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo. 
13. Aceitável enganação
Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida ordinária. E, assim como um escravo que gozava de uma liberdade imaginária, quando começa a suspeitar de que sua liberdade é apenas um sonho, teme ser despertado e conspira com essas ilusões agradáveis para ser mais longamente enganado, assim eu reincido insensivelmente por mim mesmo em minhas antigas opiniões e evito despertar dessa sonolência, de medo de que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso, em vez de me propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade, não fossem suficientes para esclarecer as trevas das dificuldades que acabam de ser agitadas.


Resumo de:
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. 3.ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes. 2011.
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É evidente que há um princípio de conexão entre os diferentes pensamentos ou ideias do espírito humano e que, ao se apresentarem à memória, se organizam com certa regularidade. Isto é tão visível em nossos pensamentos ou conversas mais sérias que qualquer pensamento irregular que nos interrompe é imediatamente notado e rejeitado. Até mesmo em nossos mais desordenados sonhos e devaneios notamos que a imaginação não vagou a esmo, porque havia sempre uma conexão entre as ideias. Se observarmos uma conversa solta e livre, notaríamos imediatamente alguma coisa que a ligou em tosas as suas transições. E se esse princípio faltasse, quem quebrou o fio da conversa poderia ainda informar que havia esclarecido um seu espírito uma sucessão de pensamentos, os quais tinham se desviado gradualmente do assunto da conversa.

Até mesmo nos idiomas mais diferentes, naqueles que não conseguimos imaginar absoluta conexão entre seus termos, encontramos que as palavras que exprimem ideias mais complexas quase se correspondem entre si, o que é uma prova segura e simples de que há um princípio universal que tinha influência sobre todos os homens.

Embora seja perceptível para qualquer um a existência dessa conexão, creio que nenhum filósofo tentou enumerar ou classificar todos os princíprios de associação, assunto que parece digno de atenção. Para mim, há três princípios de conexão entre as ideias: de semelhança, de contiguidade e de causa ou efeito.

Um quadro conduz nosso pensamento naturalmente para o original (semelhança). Quando se menciona um apartamento de um edifício, naturalmente se introduz uma investigação ou uma conversa acerca de outros. (contiguidade) E se pensarmos em um ferimento, quase não podemos evitar a lembrança da dor do que o causou (causa e efeito). E à medida que examinarmos outros exemplos e o fizermos com o máximo cuidado, adquiriremos a certeza de que a enumeração é completa e inteira.

Como o homem é um ser racional e está continuamente à procura da felicidade, raramente age, pensa ou fala sem propósito ou intenção. Ainda que sejam inadequados os meios para alcançar seu fim, há sempre um objetivo em vista. Em todas as composições geniais é, portanto, necessário que o autor tenha algum plano ou objeto. Como esta regra não admite exceção, conclui-se que nas composições narrativas os eventos ou atos que o escritor relata devem estar unidos por algum elo, é preciso que estejam unidos na imaginação e formem uma espécie de unidade que possa situá-los em um único plano.

Um analista ou historiador que tentasse escrever a história da Europa seria influenciado pela conexão contígua no espaço e no tempo. Todos os eventos dentro de um período de um século, por exemplo, têm relação entre si mesmo que ínfima.

A relação mais habitual dentre os diferentes eventos que fazem parte de uma composição narrativa é a de causa e efeito; quando um historiador segue a série de ações em sua ordem natural, remonta às suas fontes e princípios secretos, descreve suas mais remotas consequências. Às vezes preenche as lacunas e que lhe falta conhecimento; e sempre tem consciência de que sua obra é mais perfeits em função da maior continuidade de cadeira de acontecimentos que apresenta ao leitor. Sabe-se que o conhecimento de causas não é apenas o mais satisfatório mas também instrutivo, pois é unicamente por este conhecimento que somos capazes de controlar e governar o futuro. 

Resumo de:
HUME, David. Os pensadores. 1.ed. São Paulo: Editora Nova Cultura, 1999.
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Cada ser humano pode diferenciar a percepção do espírito: quando uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou prazer do calor moderado, e quando depois recorda em sua memória essa sensação ou a antecipa por meio da imaginação. Essas faculdades podem imitar ou copiar as percepções de sentido, mas nunca podem alcançar integralmente a força e a vivacidade da sensação original. O máximo que podemos dizer é que imaginamos uma sensação tão fortemente que quase podemos senti-la. Mas, a menos que seu espírito esteja perturbado pela loucura, nunca chegam ao tal grau de vivacidade que não seja possível discernir as percepções dos objetos.

Podemos observar uma distinção entre todas as percepções de espírito. Um homem que sofre de um ataque de cólera é estimulado de maneira muito diferente de um outro que apenas pensa nessa emoção. Se alguém diz que outro está amando, logo se forma uma concepção precisa de sua situação, mas nunca se pode confundir esta ideia com as reais sensações da paixão. 

Quando refletimos sobre nossas sensações e impressões passadas, nosso pensamento é um reflexo fiel e copia dos seus objetos com veracidade, porém as cores e percepções são fracas perante aquelas originais. Podemos, então, dividir todas as percepções de espírito em duas classes ou espécies: as menos fortes e menos vivas são chamadas de pensamentos ou ideias. Já as impressões são quando as percepções são mais vivas e fortes, quando ouvimos vemos, sentimos, amamos e odiamos. As impressões e ideias podem se diferenciar quando o indivíduo reflete sobre as proposições acima.

À primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que  o pensamento humano, que não apenas escapa a toda autoridade e poder do homem, mas também nem sempre é reprimido dentro dos limites da natureza e da realidade. Apesar de o corpo arrastar-se confinado em um só planeta, o pensamento pode transportar-nos num instante à regiões mais distantes do Universo. Pode-se conceber o que ainda não foi visto ou ouvido, porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento, exceto o que implica absoluta contradição.

Entretanto, embora nosso pensamento pareça possuir liberdade ilimitada, podemos verificar através de um exame muito minucioso que ele está realmente limitado dentro de um algo muito reduzido e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Todos os materiais derivam de nossas sensações externas ou internas, mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade.

Todas as nossas ideias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas.

Para prová-lo, vamos nos usar de dois argumentos. Primeiro, se analisarmos nossos pensamentos ou ideias, por mais compostos que sejam, verificamos que sempre se reduzem a ideias tão simples como eram as cópias das sensações precedentes. Mesmo as ideias que parecem mais distantes, são, na verdade, em algum ponto derivada delas.

A ideia de Deus, significando o Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, nasce da reflexão sobre as operações de novo próprio espírito, quando aumentamos indefinidamente as qualidades da bondade e sabedoria. 

Segundo, se ocorre que o defeito de um órgão prive um ser humano de uma classe de sensação, notamos que ela tem a mesma incapacidade de formular ideias a respeito. Assim, um cego não pode ter noção das cores nem um surdo dos sons. Ao abrir essas portas, no entanto, verificamos o nascimento de ideias e a pessoa não terá mais dificuldade para concebê-la. Em verdade, admitimos que outros seres podem possuir muitos sentidos dos quais não temos noção, porque a ideia desses sentidos nunca nos foram apresentadas pela única maneira por que uma ideia pode ter acesso ao espírito, isto é, mediante o sentimento e a sensação reais.

Há, no entanto, um fenômeno contraditório que pode provar que não é absolutamente impossível que as ideias nasçam espontaneamente. Acredito que se concordaria facilmente que as várias ideias de cores diferentes que penetram pelos olhos são realmente diferentes uma das outras, embora pareçam. Se isso é verdadeiro a respeito das diferentes cores, deve ser igualmente para os diversos matizes da mesma cor; e cada matiz produz uma ideia diversa, independente da outra. Suponhamos então que uma pessoa gozou durante trinta anos de sua perfeita visão e se tornou familiarizada com cores de todos os gêneros, exceto com um matiz particular de azul, que nunca teve a sorte de ver. Coloquemos então todos os diferentes matizes daquela cor, exceto aquele único, de frente para aquela pessoa, decrescendo do mais escuro ao mais claro. Certamente ela perceberá o vazio onde falta este matiz, terá o sentimento de que há uma grande distância naquele lugar, entre as cores contíguas, mais do que em qualquer outro. Ora, pergunto-lhe se seria possível, através de sua imaginação, preencher este vazio e dar nascimento à ideia desse matiz em particular seus sentidos não lhe forneceram.

Todas as ideias, especialmente as abstratas, são naturalmente fracas e obscuras; o espírito tem sobre elas um escasso controle; elas são apropriadas para serem confundidas com outras ideias semelhantes, e somos levados a imaginar que uma ideia determinada está aí anexada se, o que ocorre com frequência, empregamos qualquer termo sem lhe dar significado exato. Pelo contrário, todas as impressões, isto é, as sensações, externas ou internas, são fortes e vivas; seus limites são determinados com mais exatidão e não é tão fácil confundi-las.

De que impressão é derivada aquela suposta ideia?


Resumo de:
HUME, David. Os pensadores. 1.ed. São Paulo: Editora Nova Cultura, 1999.
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Não é de hoje que a Literatura vem tentando ser conceituada pelos mais diversos tipos de pessoas com instrução. Por mais tentativas que tenham sido feitas, ainda está em aberto o problema porque nunca podemos falar de definição, e sim de conceito: a definição pertence ao ramo da ciência, onde tudo necessita ser exatamente descrito e enunciado em suas características à rigor. O conceito diz respeito ao caráter particular de um objeto, decorrendo de impressões mais ou menos subjetivas.

Mesmo para Platão e Aristóteles, o problema conceitual de Literatura esteve presente. Para Aristóteles:
"A epopeia, a tragédia, e ainda a comédia, a poesia ditirâmbica e a maior parte da aulética e da citarística, todas são, em geral, imitações."
Ou resumidamente, a Literatura é uma imitação ("mímesis") da realidade. Analisando a Poética, Alfonso Reyes admite três interpretações para a palavra empregada por Aristóteles, mas garante que a mais importante e mais aplicável é a terceira:
"Que se refere à expressão, por meio da arte, do tipo que o artista tem na alma."


Para chegar ao conceito de Literatura, devemos partir de reflexões filosóficas. A primeira ideia diz:
"A Literatura, do mesmo modo que as demais Artes e as Filosofias, as Religiões e as Ciências, é uma forma de conhecimento. Bem, visto estarmos pretendendo compreender a extensão e o significado da palavra Literatura, havemos de nos até à palavra "conhecimento", que é o segundo termo da igualdade. Para tanto, perguntamo-nos: qual é o objeto do conhecimento? e que é conhecer? Na verdade, tudo é objeto do conhecimento, seja pertencente ao plano macrocósmico (o Universo), seja pertencente ao plano microcósmico (o Homem), seja imaterial, seja sensível, seja inteligível.
Isto posto, compreendemos que as Artes, as Filosofias, as Religiões e as Ciências constituem as quatro formas fundamentais de conhecer. Diríamos de grosso modo que as Filosofias e as Religiões situam seu campo de estudo no mundo não-físico.

O problema já posto se agrava se levarmos em conta a questão seguinte: qual instrumento de que se valem para expressar o conhecimento essas formas de conhecer. Comecemos por entender o que vem a ser a imagem mental de conhecer: quando um indivíduo cognoscente aprende o conteúdo cognoscível, transferindo-o para sua consciência, diz-se que a aprendizagem se efetivou, mas foi incompleta. Para que o processo seja completo, é necessário que o indivíduo externalize-o para fora de sua esfera mental a fim de que outros possam usufruir do conhecimento. Essas projeções e representações recebem o nome de signos (ou símbolos), isto é, sinais indicativos da relação gnoseológica. Os signos podem ser, quanto à forma, palavras e não-palavras (som, volume, movimento, espaço, números, etc.). E quanto à valência, podem ser univalentes ou polivalentes, isto é, podem conter um só sentido ou vários sentidos. Podem ainda ser divididos em signos conotativos e signos denotativos.


Som - Música
Cor - Pintura
Movimento - Dança
Volume - Escultura
Espaço - Arquitetura
Palavra - Literatura

As Artes empregam signos polivalentes, por isso cada pessoa sente de uma forma pessoal e intransferível os efeitos de uma sonata de Beethoven, uma tela de Van Gogh, um conto de Machado de Assis, uma construção de Oscar Niemeyer. Mas a polivalência dos signos das Artes é tão mutacional que os sentimentos dos receptores influenciam avidamente a percepção. A forma de expressão da Literatura não é exclusiva dela:as Ciências, as Filosofias e as Religiões igualmente a emprega. O que varia é o modo de empregá-la.

Assim, já podemos afirmar que a Literatura é um tipo de conhecimento que é expresso de modo polivalente. Essas palavras representam, de forma deformada, a realidade, porque é através do intermédio delas que encarnamos um conteúdo ideal que não pode expressar-se de outra maneira. Esse conteúdo ideal refere-se a pessoas, não a coisas: não é a "revelação" do real físico que lhe interessa, mas tudo que pertence á esfera do humano O desprezo por copiar o real significa desviar-se dele, deformá-lo, mentir, "fingir" a realidade ou inventar uma nova mais autêntica. A ficção é um universo particular onde se reúnem as percepções distorcidas. Por isso, podemos dizer que Literatura é ficção. E se entendermos a ficção como um composto de imagens deformadas e transfundidas no mundo real, podemos dizer que ficção e imaginação se equivalem, e um termo pode ser perfeitamente trocado pelo outro.

Daí vem que a Literatura emprega termos polivalentes como expressão de conteúdos da imaginação ou da ficção. Em outras palavras, a imaginação é um tipo de conhecimento expresso por via oral e/ou escrita, de valor multívoco e individual:
A literatura é a expressão de conteúdos da ficção ou da imaginação por meio de palavras de sentido múltiplo e pessoal.

Vale lembrar que para ser um texto literário, deve-se preencher alguns requisitos: a questão de valor já é outra história. Desde um soneto comum escrito por um adolescente sonhador, publicado num jornal acadêmico, até a Divina Comédia, tudo é Literatura. Pode ser que o soneto necessite de valor artístico ou de qualidade, mas irá satisfazer aquelas condições implícitas ou explícitas nas considerações feitas até agora.

Destas considerações, pode-se inferir que:

  • O Jornalismo, a Oratória, a Pedagogia, a História, os relatos de viagens, etc., por mais brilhantes que sejam, escapam do terreno da Literatura, senão ocasional e parcialmente, desde que neles são empregados signos de natureza polivalente. Sendo formas híbridas, oscilam entre a Ciência e a Literatura. 
  • Quanto ao Teatro, a questão é menos clara, mas nem por isso abala o rigor posto até aqui sobre o conceito de Literatura: o Teatro só interessa à Literatura, só é Literatura, enquanto texto escrito, jamais enquanto obra representada. Mas todos sabem que Teatro só é Teatro quando no palco, encenado, pois no papel a peça ainda não é Teatro. Pouco falta para que o Teatro se desprenda e adquira status de arte independente, com uma linguagem própria. Desde prisma, o dilema se desfaz: adquirindo o status de arte autônoma, o texto teatral iria passar a ser apenas o guia para a encenação, da mesma forma que um roteiro para um filme.
  • Como consequência das observações anteriores, podemos concluir que somente a poesia, o conto, a novela e o romance pertencem à Literatura, por satisfazerem àquele requisito básico: Literatura é ficção expressa por palavras polivalentes.

Em suma: a palavra constitui o grande veículo de expressão de conhecimento que o homem tem das coisas. Daí vem que a Literatura faz uso da palavra com a multivocidade típica, seja uma arte dona de um privilégio que distingue os homens dos animais irracionais. A palavra, que é o meio mais próprio de comunicação dos homens, é atributo exclusivo da Literatura: dentre as Artes, ela é a única que a emprega como meio de expressão, e mais, o faz polivalentemente. Desta forma, a arte universal não é a Música, mas a Literatura.
A linguagem musical certamente pode ser entendida sobre todas as fronteiras dos povos e nações, mas é apenas traduzível em linguagem literária. Na verdade, só a Literatura pode expressar aquele redemoinho profundo que constitui a essência e a existência do homem posto em face dos grandes enigmas do universo, da natureza e de sua mente.

Por fim, se partirmos da ideia que o homem é tanto mais adaptado à vida quanto mais experiências acumular, tiremos a conclusão de que não podemos ser tudo ao mesmo tempo, temos uma só vida, é impossível voltar atrás, etc., etc. Então, que resta ao homem? Resta-lhes experienciar a vivência alheia, inclusive aquela acumulada ao longo da evolução histórica da Humanidade. É exatamente por isso que se vai ao encontro de depósitos literários como museus, monumentos, livros, etc. Do contrário, era preciso que cada indivíduo começasse do zero. Ora, a Literatura fornece um tipo único de experiência, porque trata  com a imaginação, que produz formas de vida possíveis e fora da nossa esfera cotidiana. Essa experiência colhida no contato com a imaginação enriquece nossa maneira de ver os problemas cotidianos.
E assim como a saúde psicológica tem de ser conservada no decorrer da própria vida, mediante a "alimentação" em nível de símbolos afetivos: pela Literatura, que nos conduz a novas fontes de fruição; pela Literatura, que nos faz sentir que não estamos sozinhos nessa miséria; pela Literatura, que expõe nossos problemas a uma nova luz; pela Literatura, que sugere novas possibilidades e abre novos campos de experiências.

Resumo de:
MOISES, Massaud. A análise literária. 17.ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

Ilustração por http://biblioklept.org
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A palavra “Literatura” deriva do latim litteratura, que por sua vez se origina de littera, que significa letra, isto é, o ensino das primeiras letras, ou ainda, o ensino primário, da escrita e das letras. Com o tempo, a palavra ganhou melhor sentido e passou a significar arte das belas letras ou simplesmente arte literária. Como se observa, desde a etimologia a Literatura esteve intrinsecamente ligada à letra escrita e depois impressa. Isso nos esclarece um aspecto no que diz respeito ao caráter oral da Literatura. Na verdade, só podemos falar em Literatura quando possuímos documentos escritos ou impressos, o que equivale a dizer que a chamada Literatura oral não corresponde a nada. O que há é a transmissão oral da Literatura depois que existe o texto escrito ou impresso. Antes disso, é tudo menos arte literária, a não ser embrionariamente: folclore, material antropológico, etc. Aliás, parece demasiado óbvio para que insistamos nesse ponto, mas creio que vale a pena repetir: se não tivermos o texto diante de nós, não podemos adiantar nenhuma ideia ou juízo de valor a seu respeito, pois a sua comunicação oral, antes da ou após a transcrição no papel, convida-nos mais a opiniões acerca do intérprete que do conteúdo da obra.


Não podem ser considerados Literatura, por exemplo, poemas ditos mas não escritos. Também não podem ser consideradas como tendo literatura as comunidades destituídas de escritos, como os indígenas brasileiros, pois não existe outro meio de se conhecer a literatura que não escrita. Esse, inquestionavelmente, é o primeiro aspecto a ser considerado para declarar um texto como literário. Aliás, nem todo texto escrito é literário. Deu-se que a ideia errada de que a Literatura é qualquer texto impresso destinado à leitura criou uma série de falsas vertentes: "literatura farmacêutica", "literatura médica", etc. Trata-se, evidentemente, de uma deturpação do sentido da palavra.


Resumo de:
MOISES, Massaud. A análise literária. 17.ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.
Ilustração por http://prettybooks.tumblr.com.
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