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Robert Hooke e outros cientistas: A Teoria Celular

Robert Hooke (1635-1703) foi um cientista que nasceu em uma época de largos horizontes intelectuais na Idade Média. Possuía um apurad...

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1. Do motivo
Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências. Mas, parecendo-me ser muito grande essa empresa, aguardei atingir uma idade que fosse tão madura que não pudesse esperar outra após ela, na qual eu estivesse mais apto para executá-la; o que me fez diferi-la por tão longo tempo que doravante acreditaria cometer uma falta se empregasse ainda em deliberar o tempo que me resta para agir.
2. Do rompimento das antigas ideias
Agora, pois, que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que consegui um repouso assegurado numa pacífica solidão, aplicar-me-ei seria-mente e com liberdade em destruir em geral todas as minhas antigas opiniões. Ora, não será necessário, para alcançar esse desígnio, provar que todas elas são falsas, o que talvez nunca levasse a cabo; mas, uma vez que a razão já me persuade de que não devo menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas. E, para isso, não é necessário que examine cada uma em particular, o que seria um trabalho infinito; mas, visto que a ruína dos alicerces carrega necessariamente consigo todo o resto do edifício, dedicar- me-ei inicialmente aos princípios sobre os quais todas as minhas antigas opiniões estavam apoiadas.
3. Os sentidos
Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos 
ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de 
prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.
4. Parte dos sentidos é indubitável
Mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e muito distantes, encontramos talvez muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? A não ser, talvez, que eu me compare e esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por seus exemplos.
5. Sonho e realidade
Todavia, devo aqui considerar que sou homem e, por conseguinte, que tenho o costume de dormir e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas, ou algumas vezes menos verossímeis, que esses insensatos em vigília. Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito? Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.
6. Físico indubitável
Suponhamos, pois, agora, que estamos adormecidos e que todas essas particularidades, a saber, que abrimos os olhos que mexemos a cabeça, que estendemos as mãos, e coisas semelhantes, não passam de falsas ilusões; e pensemos que talvez nossas mãos, assim como todo o nosso corpo, não são tais como os vemos. Todavia, é preciso ao menos confessar que as coisas que nos são representadas durante o sono são como quadros e pinturas, que não podem ser formados senão à semelhança de algo real e verdadeiro; e que assim, pelo menos, essas coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e todo o resto do corpo, não são coisas imaginárias, mas verdadeiras e existentes. Pois, na verdade, os pintores, mesmo quando se empenham com o maior artifício em representar sereias e sátiros por formas estranhas e extraordinárias, não lhes podem, todavia, atribuir formas e naturezas inteiramente novas, mas apenas fazem certa mistura e composição dos membros de diversos animais; ou então, se porventura sua imaginação for assaz extravagante para inventar algo de tão novo, que jamais tenhamos visto coisa semelhante e que assim sua obra nos represente uma coisa puramente fictícia e absolutamente falsa, certamente ao menos as cores com que eles a compõem devem ser verdadeiras.
7. Natureza corpórea
E pela mesma razão, ainda que essas coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e outras 
semelhantes, possam ser imaginárias, é preciso, todavia, confessar que há coisas ainda mais 
simples e mais universais, que são verdadeiras e existentes; de cuja mistura, nem mais nem menos 
do que da mistura de algumas cores verdadeiras, são formadas todas essas imagens das coisas que 
residem em nesse pensamento, quer verdadeiras e reais, quer fictícias e fantásticas. Desse gênero 
de coisas é a natureza corpórea em geral, e sua extensão; juntamente com a figura das coisas 
extensas, sua quantidade, ou grandeza, e seu número; como também o lugar em que estão, o 
tempo que mede sua duração e outras coisas semelhantes.
8. Matemática indubitável
Eis por que, talvez, daí nós não concluamos mal se dissermos que a Física, a Astronomia, a Medicina e todas as outras ciências dependentes da consideração das coisas compostas são muito duvidosas e incertas; mas que a Aritmética, a Geometria e as outras ciências desta natureza, que não tratam senão de coisas muito simples e muito gerais, sem cuidarem muito em se elas existem ou não na natureza, contêm alguma coisa de certo e indubitável. Pois, quer eu esteja acordado, quer esteja dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quatro lados; e não parece possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade ou incerteza. 
9. Deus não engana porque é bom
Todavia, há muito que tenho no meu espírito certa opinião de que há um Deus que tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou. Ora, quem me poderá assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum corpo extenso, nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar e que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo isso não me pareça existir de maneira diferente daquela que eu vejo? E, mesmo, como julgo que algumas vezes os outros se enganam até nas coisas que eles acreditam saber com maior certeza, pode ocorrer que Deus tenha desejado que eu me engane todas as vezes em que faço a adição de dois mais três, ou em que enumero os lados de um quadrado, ou em que julgo alguma coisa ainda mais fácil, se é que se pode imaginar algo mais fácil do que isso. Mas pode ser que Deus não tenha querido que eu seja decepcionado desta maneira, pois ele é considerado soberanamente bom. Todavia, se repugnasse à sua bondade fazer-me de tal modo que eu me enganasse sempre, pareceria também ser-lhe contrário permitir que eu me engane algumas vezes e, no entanto, não posso duvidar de que ele mo permita.
10. Enganar-se é imperfeição
Haverá talvez aqui pessoas que preferirão negar a existência de um Deus tão poderoso a 
acreditar que todas as outras coisas são incertas. Mas não lhes resistamos no momento e 
suponhamos, em favor delas, que tudo quanto aqui é dito de um Deus seja uma fábula. Todavia, de 
qualquer maneira que suponham ter eu chegado ao estado e ao ser que possuo, quer o atribuam a 
algum destino ou fatalidade, quer o refiram ao acaso, quer queiram que isto ocorra por uma 
contínua série e conexão das coisas, é certo que, já que falhar e enganar-se é uma espécie de 
imperfeição, quanto menos poderoso for o autor a que atribuírem minha origem tanto mais será 
provável que eu seja de tal modo imperfeito que me engane sempre. Razões às quais nada tenho a 
responder, mas sou obrigado a confessar que, de todas as opiniões que recebi outrora em minha 
crença como verdadeiras, não há nenhuma da qual não possa duvidar atualmente, não por alguma 
inconsideração ou leviandade, mas por razões muito fortes e maduramente consideradas: de 
sorte que é necessário que interrompa e suspenda doravante meu juízo sobre tais pensamentos, e 
que não mais lhes dê crédito, como faria com as coisas que me parecem evidentemente falsas, se 
desejo encontrar algo de constante e de seguro nas ciências.
11. Questões confiáveis
Mas não basta ter feito tais considerações, é preciso ainda que cuide de lembrar-me delas; pois essas antigas e ordinárias opiniões ainda me voltam amiúde ao pensamento, dando-lhes a longa e familiar convivência que tiveram comigo o direito de ocupar meu espírito mau grado meu e de tornarem-se quase que senhoras de minha crença. E jamais perderei o costume de aquiescer a isso e de confiar nelas, enquanto as considerar como são efetivamente, ou seja, como duvidosas de alguma maneira, como acabamos de mostrar, e todavia muito prováveis, de sorte que se tem muito mais razão em acreditar nelas do que em negá-las. Eis por que penso que me utilizarei delas mais prudentemente se, tomando partido contrário, empregar todos os meus cuidados em enganar-me a mim mesmo, fingindo que todos esses pensamentos são falsos e imaginários; até que, tendo de tal modo sopesado meus prejuízos, eles não possam inclinar minha opinião mais para um lado do que para o outro, e meu juízo não mais seja doravante dominado por maus usos e desviado do reto caminho que pode conduzi-lo ao conhecimento da verdade. Pois estou seguro de que, apesar disso, não pode haver perigo nem erro nesta via e de que não poderia hoje aceder demasiado à minha desconfiança, posto que não se trata no momento de agir, mas somente de meditar e de conhecer. 
12. Deus enganador
Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado da falsa crença de ter todas essas coisas. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento; e se, por esse meio, não está em meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo. 
13. Aceitável enganação
Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida ordinária. E, assim como um escravo que gozava de uma liberdade imaginária, quando começa a suspeitar de que sua liberdade é apenas um sonho, teme ser despertado e conspira com essas ilusões agradáveis para ser mais longamente enganado, assim eu reincido insensivelmente por mim mesmo em minhas antigas opiniões e evito despertar dessa sonolência, de medo de que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso, em vez de me propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade, não fossem suficientes para esclarecer as trevas das dificuldades que acabam de ser agitadas.


Resumo de:
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. 3.ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes. 2011.
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É evidente que há um princípio de conexão entre os diferentes pensamentos ou ideias do espírito humano e que, ao se apresentarem à memória, se organizam com certa regularidade. Isto é tão visível em nossos pensamentos ou conversas mais sérias que qualquer pensamento irregular que nos interrompe é imediatamente notado e rejeitado. Até mesmo em nossos mais desordenados sonhos e devaneios notamos que a imaginação não vagou a esmo, porque havia sempre uma conexão entre as ideias. Se observarmos uma conversa solta e livre, notaríamos imediatamente alguma coisa que a ligou em tosas as suas transições. E se esse princípio faltasse, quem quebrou o fio da conversa poderia ainda informar que havia esclarecido um seu espírito uma sucessão de pensamentos, os quais tinham se desviado gradualmente do assunto da conversa.

Até mesmo nos idiomas mais diferentes, naqueles que não conseguimos imaginar absoluta conexão entre seus termos, encontramos que as palavras que exprimem ideias mais complexas quase se correspondem entre si, o que é uma prova segura e simples de que há um princípio universal que tinha influência sobre todos os homens.

Embora seja perceptível para qualquer um a existência dessa conexão, creio que nenhum filósofo tentou enumerar ou classificar todos os princíprios de associação, assunto que parece digno de atenção. Para mim, há três princípios de conexão entre as ideias: de semelhança, de contiguidade e de causa ou efeito.

Um quadro conduz nosso pensamento naturalmente para o original (semelhança). Quando se menciona um apartamento de um edifício, naturalmente se introduz uma investigação ou uma conversa acerca de outros. (contiguidade) E se pensarmos em um ferimento, quase não podemos evitar a lembrança da dor do que o causou (causa e efeito). E à medida que examinarmos outros exemplos e o fizermos com o máximo cuidado, adquiriremos a certeza de que a enumeração é completa e inteira.

Como o homem é um ser racional e está continuamente à procura da felicidade, raramente age, pensa ou fala sem propósito ou intenção. Ainda que sejam inadequados os meios para alcançar seu fim, há sempre um objetivo em vista. Em todas as composições geniais é, portanto, necessário que o autor tenha algum plano ou objeto. Como esta regra não admite exceção, conclui-se que nas composições narrativas os eventos ou atos que o escritor relata devem estar unidos por algum elo, é preciso que estejam unidos na imaginação e formem uma espécie de unidade que possa situá-los em um único plano.

Um analista ou historiador que tentasse escrever a história da Europa seria influenciado pela conexão contígua no espaço e no tempo. Todos os eventos dentro de um período de um século, por exemplo, têm relação entre si mesmo que ínfima.

A relação mais habitual dentre os diferentes eventos que fazem parte de uma composição narrativa é a de causa e efeito; quando um historiador segue a série de ações em sua ordem natural, remonta às suas fontes e princípios secretos, descreve suas mais remotas consequências. Às vezes preenche as lacunas e que lhe falta conhecimento; e sempre tem consciência de que sua obra é mais perfeits em função da maior continuidade de cadeira de acontecimentos que apresenta ao leitor. Sabe-se que o conhecimento de causas não é apenas o mais satisfatório mas também instrutivo, pois é unicamente por este conhecimento que somos capazes de controlar e governar o futuro. 

Resumo de:
HUME, David. Os pensadores. 1.ed. São Paulo: Editora Nova Cultura, 1999.
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A Lua, quando fica velha, todo o mundo sabe que vira lua nova.

Mas negro velho vira macaco. Desses macaquinhos de realejo... Cuidado: quanto mais velhos mais vivos. Sabem tudo. Descobrem tudo. Se tens algum pecado oculto, foge das suas caretas falsamente amigas, dos seus olhinhos espertos e cínicos!

E os velhos jurisconsultos viram fetos... esses fetos que a gente olha, meio desconfiado, nos bocais de vidro.., e que, no silêncio dos laboratórios, oscilando gravemente as cabeças fenomenais, elucubram anteprojetos, orações de paraninfo, reformas da Constituição... Sempre que puderes, crava um punhal, um garfo, um prego, no miolo mole dos fetos.

Em compensação, as velhinhas que fazem renda viram fio... Fio, sim senhor! Esses fios que vagam soltos no ar... que ninguém sabe de onde vêm.., e se prendem num galho morto... no chapéu do viajante solitário.., no freio do seu cavalo.., que se prendem, desesperadamente, num lábio fresco, numa trança ao vento...

E os velhos que mal podem acender os cigarros, os pobres velhinhos trêmulos viram reflexos... Esses reflexos que dançam no ar... que nascem no ar... De uma vidraça.., de um para-brisa... do galo do para-raios que volteou de súbito... de folhas que se assustam, de mariposas tontejando. de uma ronda infantil sob a lua redonda...

QUINTANA, Mário. Sapato florido. 1.ed. Porto Alegre: Editora Globo.
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Não é de hoje que a Literatura vem tentando ser conceituada pelos mais diversos tipos de pessoas com instrução. Por mais tentativas que tenham sido feitas, ainda está em aberto o problema porque nunca podemos falar de definição, e sim de conceito: a definição pertence ao ramo da ciência, onde tudo necessita ser exatamente descrito e enunciado em suas características à rigor. O conceito diz respeito ao caráter particular de um objeto, decorrendo de impressões mais ou menos subjetivas.

Mesmo para Platão e Aristóteles, o problema conceitual de Literatura esteve presente. Para Aristóteles:
"A epopeia, a tragédia, e ainda a comédia, a poesia ditirâmbica e a maior parte da aulética e da citarística, todas são, em geral, imitações."
Ou resumidamente, a Literatura é uma imitação ("mímesis") da realidade. Analisando a Poética, Alfonso Reyes admite três interpretações para a palavra empregada por Aristóteles, mas garante que a mais importante e mais aplicável é a terceira:
"Que se refere à expressão, por meio da arte, do tipo que o artista tem na alma."


Para chegar ao conceito de Literatura, devemos partir de reflexões filosóficas. A primeira ideia diz:
"A Literatura, do mesmo modo que as demais Artes e as Filosofias, as Religiões e as Ciências, é uma forma de conhecimento. Bem, visto estarmos pretendendo compreender a extensão e o significado da palavra Literatura, havemos de nos até à palavra "conhecimento", que é o segundo termo da igualdade. Para tanto, perguntamo-nos: qual é o objeto do conhecimento? e que é conhecer? Na verdade, tudo é objeto do conhecimento, seja pertencente ao plano macrocósmico (o Universo), seja pertencente ao plano microcósmico (o Homem), seja imaterial, seja sensível, seja inteligível.
Isto posto, compreendemos que as Artes, as Filosofias, as Religiões e as Ciências constituem as quatro formas fundamentais de conhecer. Diríamos de grosso modo que as Filosofias e as Religiões situam seu campo de estudo no mundo não-físico.

O problema já posto se agrava se levarmos em conta a questão seguinte: qual instrumento de que se valem para expressar o conhecimento essas formas de conhecer. Comecemos por entender o que vem a ser a imagem mental de conhecer: quando um indivíduo cognoscente aprende o conteúdo cognoscível, transferindo-o para sua consciência, diz-se que a aprendizagem se efetivou, mas foi incompleta. Para que o processo seja completo, é necessário que o indivíduo externalize-o para fora de sua esfera mental a fim de que outros possam usufruir do conhecimento. Essas projeções e representações recebem o nome de signos (ou símbolos), isto é, sinais indicativos da relação gnoseológica. Os signos podem ser, quanto à forma, palavras e não-palavras (som, volume, movimento, espaço, números, etc.). E quanto à valência, podem ser univalentes ou polivalentes, isto é, podem conter um só sentido ou vários sentidos. Podem ainda ser divididos em signos conotativos e signos denotativos.


Som - Música
Cor - Pintura
Movimento - Dança
Volume - Escultura
Espaço - Arquitetura
Palavra - Literatura

As Artes empregam signos polivalentes, por isso cada pessoa sente de uma forma pessoal e intransferível os efeitos de uma sonata de Beethoven, uma tela de Van Gogh, um conto de Machado de Assis, uma construção de Oscar Niemeyer. Mas a polivalência dos signos das Artes é tão mutacional que os sentimentos dos receptores influenciam avidamente a percepção. A forma de expressão da Literatura não é exclusiva dela:as Ciências, as Filosofias e as Religiões igualmente a emprega. O que varia é o modo de empregá-la.

Assim, já podemos afirmar que a Literatura é um tipo de conhecimento que é expresso de modo polivalente. Essas palavras representam, de forma deformada, a realidade, porque é através do intermédio delas que encarnamos um conteúdo ideal que não pode expressar-se de outra maneira. Esse conteúdo ideal refere-se a pessoas, não a coisas: não é a "revelação" do real físico que lhe interessa, mas tudo que pertence á esfera do humano O desprezo por copiar o real significa desviar-se dele, deformá-lo, mentir, "fingir" a realidade ou inventar uma nova mais autêntica. A ficção é um universo particular onde se reúnem as percepções distorcidas. Por isso, podemos dizer que Literatura é ficção. E se entendermos a ficção como um composto de imagens deformadas e transfundidas no mundo real, podemos dizer que ficção e imaginação se equivalem, e um termo pode ser perfeitamente trocado pelo outro.

Daí vem que a Literatura emprega termos polivalentes como expressão de conteúdos da imaginação ou da ficção. Em outras palavras, a imaginação é um tipo de conhecimento expresso por via oral e/ou escrita, de valor multívoco e individual:
A literatura é a expressão de conteúdos da ficção ou da imaginação por meio de palavras de sentido múltiplo e pessoal.

Vale lembrar que para ser um texto literário, deve-se preencher alguns requisitos: a questão de valor já é outra história. Desde um soneto comum escrito por um adolescente sonhador, publicado num jornal acadêmico, até a Divina Comédia, tudo é Literatura. Pode ser que o soneto necessite de valor artístico ou de qualidade, mas irá satisfazer aquelas condições implícitas ou explícitas nas considerações feitas até agora.

Destas considerações, pode-se inferir que:

  • O Jornalismo, a Oratória, a Pedagogia, a História, os relatos de viagens, etc., por mais brilhantes que sejam, escapam do terreno da Literatura, senão ocasional e parcialmente, desde que neles são empregados signos de natureza polivalente. Sendo formas híbridas, oscilam entre a Ciência e a Literatura. 
  • Quanto ao Teatro, a questão é menos clara, mas nem por isso abala o rigor posto até aqui sobre o conceito de Literatura: o Teatro só interessa à Literatura, só é Literatura, enquanto texto escrito, jamais enquanto obra representada. Mas todos sabem que Teatro só é Teatro quando no palco, encenado, pois no papel a peça ainda não é Teatro. Pouco falta para que o Teatro se desprenda e adquira status de arte independente, com uma linguagem própria. Desde prisma, o dilema se desfaz: adquirindo o status de arte autônoma, o texto teatral iria passar a ser apenas o guia para a encenação, da mesma forma que um roteiro para um filme.
  • Como consequência das observações anteriores, podemos concluir que somente a poesia, o conto, a novela e o romance pertencem à Literatura, por satisfazerem àquele requisito básico: Literatura é ficção expressa por palavras polivalentes.

Em suma: a palavra constitui o grande veículo de expressão de conhecimento que o homem tem das coisas. Daí vem que a Literatura faz uso da palavra com a multivocidade típica, seja uma arte dona de um privilégio que distingue os homens dos animais irracionais. A palavra, que é o meio mais próprio de comunicação dos homens, é atributo exclusivo da Literatura: dentre as Artes, ela é a única que a emprega como meio de expressão, e mais, o faz polivalentemente. Desta forma, a arte universal não é a Música, mas a Literatura.
A linguagem musical certamente pode ser entendida sobre todas as fronteiras dos povos e nações, mas é apenas traduzível em linguagem literária. Na verdade, só a Literatura pode expressar aquele redemoinho profundo que constitui a essência e a existência do homem posto em face dos grandes enigmas do universo, da natureza e de sua mente.

Por fim, se partirmos da ideia que o homem é tanto mais adaptado à vida quanto mais experiências acumular, tiremos a conclusão de que não podemos ser tudo ao mesmo tempo, temos uma só vida, é impossível voltar atrás, etc., etc. Então, que resta ao homem? Resta-lhes experienciar a vivência alheia, inclusive aquela acumulada ao longo da evolução histórica da Humanidade. É exatamente por isso que se vai ao encontro de depósitos literários como museus, monumentos, livros, etc. Do contrário, era preciso que cada indivíduo começasse do zero. Ora, a Literatura fornece um tipo único de experiência, porque trata  com a imaginação, que produz formas de vida possíveis e fora da nossa esfera cotidiana. Essa experiência colhida no contato com a imaginação enriquece nossa maneira de ver os problemas cotidianos.
E assim como a saúde psicológica tem de ser conservada no decorrer da própria vida, mediante a "alimentação" em nível de símbolos afetivos: pela Literatura, que nos conduz a novas fontes de fruição; pela Literatura, que nos faz sentir que não estamos sozinhos nessa miséria; pela Literatura, que expõe nossos problemas a uma nova luz; pela Literatura, que sugere novas possibilidades e abre novos campos de experiências.

Resumo de:
MOISES, Massaud. A análise literária. 17.ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

Ilustração por http://biblioklept.org
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Atacado de senso de responsabilidade, num momento de descrença de si mesmo, Rubem Braga liquidou entre amigos, há um ano, a sua passarinhada. Às crianças aqui de casa tocaram um bicudo e um canário. O primeiro não aguentou a crise da puberdade, morrendo logo uns dias depois. O menino se consolou, forjando a teoria da imortalidade dos passarinhos: não morrera, afirmou-nos com um fanatismo que impunha respeito ou piedade, apenas a sua alma voara para Pirapora, de onde viera. O garoto ficou firme com a sua fé. A menina manteve a possessão do canário, desses comuns, chamados chapinha ou da-terra, e que mais cantam por boa vontade que por vocação. Não importa, conseguiu depressa um lugar em nossa afeição, que o tratávamos com alpiste, vitaminas e folhas de alface, procurando ainda arranjar-lhe um recanto mais cálido neste apartamento batido por umas raras réstias de sol, pois é quase de todo virado para o Sul.

Era um canário ordinário, nunca lera Bilac, e parecia feliz em sua gaiola. Nós o amávamos desse amor vagaroso e distraído com que enquadramos um bichinho em nossa órbita afetiva. Creio mesmo que se ama com mais força um animal sem raça, um pássaro comum, um cachorro vira-lata, o gato popular que anda pelos telhados. Com os animais de raça há uma afetação que envenena um pouco o sentimento; com os bichos comuns, pelo contrário, o afeto é de uma gratuidade que nos faz bem.

Aos poucos surpreendi a mim, que nunca fui de bichos, e na infância não os tive, a programá-lo em minhas preocupações. Verificava o seu pequeno cocho de alpiste, renovava-lhe a água fresca, telefonava da rua quando chovia, mesmo encabulado perante mim mesmo com essa sentimentalidade serôdia, mas, que havia de fazer!

Como nas fábulas infantis, um dia chegou o inverno, um inverno carioca, é verdade, perfeitamente suportável. Entretanto, como já disse, a posição do edifício não deixa o sol bater aqui, principalmente nesta época do ano. É a gente ficar algumas horas dentro de casa e sentir logo uma saudade física dos raios solares. Que seria então do canarinho, relegado agora à área onde pelo menos ficava ao abrigo da viração marinha. Às vezes, quando sinto frio, vou à esquina, compro um jornal e o leio ali mesmo, ao sol. Ao mesmo tempo que compreendo o mistério e a inquietação dos escandinavos, mergulhados em friagens e brumas durante uma boa temporada de suas vidas.

E o canarinho, pois? Levá-lo comigo dentro da gaiola, isso não, eu não tinha coragem. Não devo ter reputação de muito sensato, e lá se iria (como diz Mário Quintana) o resto do prestígio que no meu bairro eu ainda possa ter. Assim, vendo o passarinho encorujado a um canto, decidimos doá-lo a um amigo comum, nosso e dos passarinhos, dono de um sítio. A comunicação foi feita às crianças depois do café. Pareciam estar de acordo, mas o menino, sem dar um pio, dirigiu-se até a área e soltou o canarinho. A empregada viu e veio contar-nos.

Mas, cadê o menino? Voando? Foi um susto que demorou alguns minutos, pois não o achávamos em seus esconderijos habituais, enrolado na cortina, debaixo da cama, atrás da porta. Restava um armário muito estreito a ser investigado, e lá estava ele, quieto e encolhido no escuro como no útero materno, com uma cara de expressão tão dividida, que o choro da menina se desfez em uma gargalhada cheia de lágrimas.

O canário também tinha sumido e, embora fosse quase certa a sua impossibilidade de ganhar a vida por conta própria, melhor assim, não voltasse nunca mais.

Mas voltou. Na hora do almoço a empregada veio dizer-nos que ele estava na janela do edifício que se constrói ao lado, muito triste. É verdade. Lá está o canarinho, sem saber de onde veio, sem saber aonde ir, sem saber ao certo se gostamos dele, triste, arrepiado e com fome. Um ponto amarelo no paredão esbranquiçado, lá está o nosso canário-da-terra a doer em nossos olhos.

Vai-te embora, canarinho, que não te quero mais. Mas ele fica, brincando de corvo, dizendo "never more". Esse refrão (never more) me deixa meio esquisito. Estou triste. Todo mundo aqui em casa está triste, ridiculamente triste, nesta manhã luminosa de junho.


CAMPOS, Paulo Mendes. Para gostar de ler. 2.ed. São Paulo: Editora Ática. 2010
Ilustração por http://freedesignfile.com
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VEDOVA, Emilio.
"Ciclo 61N.8"

O tachismo não pode ser considerado um grande movimento, com suas características próprias e traços distintivos. Nada mais é que uma espécie de tendência que deve suas raízes à Europa, após a Segunda Guerra Mundial. O termo veio do francês tache, que significa mancha, sendo implantado pelo crítico Michel Tapié no livro Un Art Autre (Uma Arte Outra). Tapié tentou, com essa ideia, designar um novo estilo de pintura que dispensa toda a pompa da formalização, se desprendendo de todas as correntes e estilos anteriores. O conceito "arte informal" também pode definir o tachismo, mas apenas no sentido sem forma.

O tachismo defende a improvisação que, associada ao gesto espontâneo e instintivo, se permite mesclar elementos do expressionismo abstrato e ter afinidades com o surrealismo. Valorizando o inconsciente, cria laços com o dadaísmo, em função do apoio ao caráter irracionalista da arte e no expressionismo, tomando a imaginação como expressão direta do espírito do pintor. O uso de manchas irregulares e de cores remete ainda às obras de Claude Monet.

O pintor e poeta Jean-Michel Atlan, um dos expoentes da nova tendência pictórica, definiu, em 1953, o caráter do projeto tachista:
"A pintura para mim não pode ser derivada de uma ideia preconcebida; a parte que cabe ao acaso (aventura) é muito importante e, de fato, é este acaso que cumpre o papel decisivo no processo de criação".

Essa arte informal deve ser analisada juntamente com seu quadro pós-guerra. Além disso, a característica abstrata do tachismo acentua a descrença em relação à racionalidade ocidental e à civilização tecnológica, celebradas pelas vanguardas no começo do século XX. As grandes filosofias da crise, em especial o existencialismo de Jean-Paul Sartre, dão o tom daquela época no plano das ideias, reverberando nas artes de modo geral. O novo exame crítico dos movimentos artísticos da primeira metade do século XX dirige o foco dos novos artistas para o cubismo, que também é uma influência ao tachismo como decomposição. Mas esta decomposição, no caso do tachismo, deve ser explosiva, refletindo-se no rompimento radical da forma até então imposta, longe da decomposição analítica como querem Pablo Picasso e Georges Braque. A ênfase na característica gestual do tachismo coloca-se como uma tentativa de ultrapassagem tanto dos conteúdos realistas quanto dos formalismos geométricos. 

FAUTRIER, Jean.
Grandes Etendues
Em pintores como Hans Hartung e Pierre Jean Louis Soulages, observa-se a recusa da fórmula racionalista pela pintura apoiada no gesto. O conhecimento deriva da ação e esta se apresenta pelo traço decidido do artista que abre e bloqueia espaços na superfície da tela com o auxílio de linhas e borrões, negros e grossos, que deixam entrever o fundo por pequenas frestas e intervalos. Em outros pintores, a ênfase da pesquisa recai preferencialmente sobre a matéria, como nos franceses Jean Fautrier e Jean Dubuffet, e nos trabalhos do italiano Alberto Burri e do catalão Antoni Tàpies. Fautrier se singulariza pelo desenvolvimento de uma técnica própria, que consiste em pintar uma camada de tinta sobre a outra, com a qual ele obtém espessos empastes. Sua série mais famosa, Reféns, 1943 nasce da experiência como refugiado, quando assiste aos fuzilamentos dos prisioneiros de guerra pelos alemães.

Em Dubuffet, o trabalho com a matéria tachista conhece pelo menos dois resultados: um que se liga às Texturologias produzidas em fins dos anos 1950, que se caracterizam, como o próprio título indica, pelas texturas experimentadas com cores e materiais distintos, e apontam na direção da recusa da expressão ou da representação. Outro resultado advém da associação da matéria ao desenho, que originam figurações cômicas como L'interloqué, 1954 - no título, evidencia-se o jogo de palavras designando aquele que está "impedido de dizer", o que, de outro modo, retoma a idéia de incomunicabilidade característica da anarquia do tachismo. Burri explora as potencialidades expressivas de maneira diferente: solda, costura e cola seus sacos, madeiras, papéis queimados, paus, latas e plásticos. Combustões, 1957 e Ferros, 1958 constituem exemplos eloqüentes de seu projeto. A "pintura matérica" de Tàpies, por sua vez, tem forte sentido trágico. Os muros intransponíveis, as janelas e portas fechadas que negam qualquer acesso se relacionam diretamente com a situação política espanhola.

BURRI, Alberto.
Red Plastic

Em artistas como Wols, os caminhos da decomposição da forma são outros. O tom dominante nesses trabalhos menos que o gesto ou a matéria é o traço, a linha e a cor, que guardam relação com o lirismo de Paul Klee. A criação desse tipo de signo também ocorre com o pintor e poeta Henri Michaux em O Silo, 1960, assim como em Georges Mathieu, admirador da caligrafia oriental, Cast, 1964. Na Itália é possível lembrar os nomes de Emilio Vedova, Afro, Renato Birolli e Giuseppe Capogrossi. No Japão, a arte informal tem lugar em 1950 com o Gutai Bitjutsu Kyokai (Grupo Gutai) e o pintor Jiro Yoshihara. No Brasil, as obras de Manabu Mabe, Tomie Ohtake e Flavio-Shiró parecem se ligar ao tachismo ou ao abstracionismo lírico, que conhecem adesões variadas entre nós, em Cicero Dias, Antonio Bandeira e Iberê Camargo.


Referências/Links externos:
Obras de Fautrier (em inglês)
Obras de Burri (em inglês)
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