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Robert Hooke e outros cientistas: A Teoria Celular
Robert Hooke (1635-1703) foi um cientista que nasceu em uma época de largos horizontes intelectuais na Idade Média. Possuía um apurad...
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A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café
junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A
perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito
mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu
disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de
ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do
acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma
criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a
noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo
meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu
quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço
então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem
uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos
acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede
de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e
palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus
três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se
instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr
os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que
compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom,
inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo
sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente
ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve,
concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A
mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade
de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O
homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no
pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia
triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de
Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não
começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à
mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e
brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de
fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas
brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo.
E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as
velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore
e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater
palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se
juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a
mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra
finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher
está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo
crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos
pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso
da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se
encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a
cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
SABINO, Fernando. A falta que ela me faz. 9.ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1923.
Crônicas - Fernando Sabino - Literatura

Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito.
Porém - diz um dr. Mereje - não foi o primeiro. Em São Paulo, há 7 anos,
nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como
se fora um coração postiço."
Como se fora um coração
postiço... O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha
nascido às cinco horas. Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos,
diria:
“...a hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam...”
Madrugada
paulistana. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira
fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os
postes. Os sinais das esquinas - vermelhos, amarelos, verdes - verdes,
amarelos, vermelhos - borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho.
Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso
no Viaduto do Chá contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém
nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas
flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes,
artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento
tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe.
Passam homens de cara lavada, pobres com embrulhos de jornais debaixo do
braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas.
Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o
coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado,
com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você
devia vir cá fora receber o beijo da madrugada. Vamos andar pelas
praças desertas, onde as estátuas molhadas cabeceiam de sono. Menino do
coração fora do peito, os primeiros bondes estrondam. Vamos ouvir de
perto esses barulhos da madrugada.
6
horas. O coração fora do peito bate docemente. 7 horas - o coração
bate. .. 8 horas - que sol claro, que barulho na rua! - o coração
bate...
9 horas - morreu o menino do coração fora do
peito. Fez bem morrer, menino. O dr. Mereje resmunga: "Filho de pais
alcoólatras e sifilíticos..." Deixe falar o dr. Mereje. Ele é um médico,
você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os "pais
alcoólatras e sifilíticos" fazem o enterro banal do anjinho suburbano.
Mas que anjinho engraçado! - diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está
no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos
olham espantados. O que é isso, "seu" paulista? Mas o menino do coração
fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua
história: "o dr. Mereje disse que..." - mas não conta. Está rindo, mas
está triste. Os anjinhos todos querem saber. Então o menino diz:
Ora,
pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse
ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista
de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse â luz,
ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do
peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança...
Os anjinhos todos do limbo perguntaram:
Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?
O anjinho respondeu:
Eu
vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro
do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele,
ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar
fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.
Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:
E
às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e
no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não
tem coração nenhum. "E quando eu nasci, o dr. Mereje olhou meu coração
livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o
que dizia: "parece um coração postiço". Os homens todos, minha gente,
são assim como o dr. Mereje.
Os anjinhos estavam cada
vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e
mocinho de cinema, e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava
aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho
dormir sono sossegado, dr. Mereje!
BRAGA, Rubem. Para gostar de ler. 2.ed. São Paulo: Editora Ática. 2010
Contos - Literatura - Rubem Braga
A Lua, quando fica velha, todo o mundo sabe que vira lua nova.
Mas negro velho vira macaco. Desses macaquinhos de realejo... Cuidado:
quanto mais velhos mais vivos. Sabem tudo. Descobrem tudo. Se tens algum
pecado oculto, foge das suas caretas falsamente amigas, dos seus
olhinhos espertos e cínicos!
E os velhos jurisconsultos viram fetos... esses fetos que a gente olha,
meio desconfiado, nos bocais de vidro.., e que, no silêncio dos
laboratórios, oscilando gravemente as cabeças fenomenais, elucubram
anteprojetos, orações de paraninfo, reformas da Constituição... Sempre
que puderes, crava um punhal, um garfo, um prego, no miolo mole dos
fetos.
Em compensação, as velhinhas que fazem renda viram fio... Fio, sim
senhor! Esses fios que vagam soltos no ar... que ninguém sabe de onde
vêm.., e se prendem num galho morto... no chapéu do viajante
solitário.., no freio do seu cavalo.., que se prendem, desesperadamente,
num lábio fresco, numa trança ao vento...
E os velhos que mal podem acender os cigarros, os pobres velhinhos
trêmulos viram reflexos... Esses reflexos que dançam no ar... que nascem
no ar... De uma vidraça.., de um para-brisa... do galo do para-raios que
volteou de súbito... de folhas que se assustam, de mariposas
tontejando. de uma ronda infantil sob a lua redonda...
QUINTANA, Mário. Sapato florido. 1.ed. Porto Alegre: Editora Globo.
Contos - Destaques - Literatura - Mário Quintana
Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.
Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,
e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,
enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo do teu ser?
Carlos Drummond de Andrade - Literatura - Poesia
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Carlos Drummond de Andrade - Literatura - Poesia
Era um canário ordinário, nunca lera Bilac, e parecia feliz em sua gaiola. Nós o amávamos desse amor vagaroso e distraído com que enquadramos um bichinho em nossa órbita afetiva. Creio mesmo que se ama com mais força um animal sem raça, um pássaro comum, um cachorro vira-lata, o gato popular que anda pelos telhados. Com os animais de raça há uma afetação que envenena um pouco o sentimento; com os bichos comuns, pelo contrário, o afeto é de uma gratuidade que nos faz bem.
Aos poucos surpreendi a mim, que nunca fui de bichos, e na infância não os tive, a programá-lo em minhas preocupações. Verificava o seu pequeno cocho de alpiste, renovava-lhe a água fresca, telefonava da rua quando chovia, mesmo encabulado perante mim mesmo com essa sentimentalidade serôdia, mas, que havia de fazer!
Como nas fábulas infantis, um dia chegou o inverno, um inverno carioca, é verdade, perfeitamente suportável. Entretanto, como já disse, a posição do edifício não deixa o sol bater aqui, principalmente nesta época do ano. É a gente ficar algumas horas dentro de casa e sentir logo uma saudade física dos raios solares. Que seria então do canarinho, relegado agora à área onde pelo menos ficava ao abrigo da viração marinha. Às vezes, quando sinto frio, vou à esquina, compro um jornal e o leio ali mesmo, ao sol. Ao mesmo tempo que compreendo o mistério e a inquietação dos escandinavos, mergulhados em friagens e brumas durante uma boa temporada de suas vidas.
E o canarinho, pois? Levá-lo comigo dentro da gaiola, isso não, eu não tinha coragem. Não devo ter reputação de muito sensato, e lá se iria (como diz Mário Quintana) o resto do prestígio que no meu bairro eu ainda possa ter. Assim, vendo o passarinho encorujado a um canto, decidimos doá-lo a um amigo comum, nosso e dos passarinhos, dono de um sítio. A comunicação foi feita às crianças depois do café. Pareciam estar de acordo, mas o menino, sem dar um pio, dirigiu-se até a área e soltou o canarinho. A empregada viu e veio contar-nos.
Mas, cadê o menino? Voando? Foi um susto que demorou alguns minutos, pois não o achávamos em seus esconderijos habituais, enrolado na cortina, debaixo da cama, atrás da porta. Restava um armário muito estreito a ser investigado, e lá estava ele, quieto e encolhido no escuro como no útero materno, com uma cara de expressão tão dividida, que o choro da menina se desfez em uma gargalhada cheia de lágrimas.
O canário também tinha sumido e, embora fosse quase certa a sua impossibilidade de ganhar a vida por conta própria, melhor assim, não voltasse nunca mais.
Mas voltou. Na hora do almoço a empregada veio dizer-nos que ele estava na janela do edifício que se constrói ao lado, muito triste. É verdade. Lá está o canarinho, sem saber de onde veio, sem saber aonde ir, sem saber ao certo se gostamos dele, triste, arrepiado e com fome. Um ponto amarelo no paredão esbranquiçado, lá está o nosso canário-da-terra a doer em nossos olhos.
Vai-te embora, canarinho, que não te quero mais. Mas ele fica, brincando de corvo, dizendo "never more". Esse refrão (never more) me deixa meio esquisito. Estou triste. Todo mundo aqui em casa está triste, ridiculamente triste, nesta manhã luminosa de junho.
CAMPOS, Paulo Mendes. Para gostar de ler. 2.ed. São Paulo: Editora Ática. 2010
Ilustração por http://freedesignfile.com
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